Birras, castigos, consequências e justiça
Magda Gomes Dias
Com muita frequência os pais falam-me, com preocupação ou sentimento de impotência, acerca das birras dos filhos.
Com muita frequência usam expressões como ‘ele está a testar-me’, ‘ele sabe o que me tira do sério’, ‘é impressionante, com o avô não faz ele isso’.
E é curioso como estas frases são mais frequentes em pais de crianças com filhos entre os 18 meses e os 5 anos.
E perguntam-me depois ‘o que é que eu faço nestas situações?’
Então vou contar-te o que eu sei.
Eu sei que, na maior parte das vezes eles não estão nem aí para o ‘desafio’, o ‘teste’ ou a ‘provoção’.
Não?, perguntas tu? E eu respondo-te que ‘não’, e passo a explicar.
As vulgares birras, e choros e ‘os cinco minutos’ do teu filho são o reflexo de uma frustração qualquer. Ou ele não consegue encaixar as peças dos legos, ou ele quer continuar a brincar na piscina em vez de ir embora para casa, ou bem que ele quer, porque quer ir de havaianas para o colégio em vez de galochas. Ele quer isso, ele acha que pode. Tu não deixas. Ele chora, grita, mostra a frustração dele, o descontentamento. Num mundo ideal tudo seria possível. Como não há mundo assim, essa é a forma que ele arranja [e todos eles] para mostrar o desagrado.
Até aqui tudo certo, é fácil e lógico de entender.
Agora vamos pegar num caso concreto.
Hoje decides ir com o teu filho ao supermercado. São as promoções do Natal, está tudo a 50%. Dizes-lhe que vais só entrar, levar o detergente para a loiça e o pacote de guardanapos que está a faltar lá em casa. Dizes-lhe que não vais levar mais nada e ‘temos mesmo de fazer isto a correr, não vou comprar mais nada, não vale a pena pedires ou estares com coisas. ’. E passas a correr pelos corredores que transbordam de caixas cheias de bonecos. Ele quer ver. Tu continuas. Como ele até está calmo, aproveitas para levar mais uns bifes de frango, iogurtes para os lanches e um garrafão de água. E ele começa a ficar chato, birrento. Começa a dizer-te que quer as bolachas do mickey, depois já quer a escova de dentes do homem-aranha e agora quer o dentífrico do cars. Tu percebes que tens de ir embora mas pensas até podias levar mais uns ovos e um saco de arroz, afinal de contas é num instante. Mas ele diz que ‘preciso mesmo da escova do mickey porque a minha já é velha’. E tu dizes ‘pronto, pega lá mas é a última coisa que pedes caso contrário vamos já embora.’
O que é que ensinaste? Ensinaste a testar limites.
Como assim?, perguntas tu.
Disseste que não valia a pena pedir nada.
Ele pediu 3 ou 4 vezes. Tu deste.
Ele percebeu que quando insiste obtém o que quer.
Da próxima vez vai repetir o comportamento. Simplesmente repetir.
Não é um teste, não é uma provocação. É, simplesmente, a repetição de um comportamento.
E isto leva-me à questão dos castigos. Tantas e tantas vezes castigamos os nossos filhos por sentirmos que eles estão a ‘esticarem-se’ [quando tantas vezes fomos nós que os baralhámos, não é?].
Vamos lá de novo pegar num exemplo concreto.
Vais ao supermercado, o teu filho começa a dificultar-te a tarefa e tu pedes que se acalme e se comporte. Ele continua e tu dizes-lhe que caso continue naquilo, da próxima vez não vai contigo.
E ele continua e tu fazes o que tens a fazer e sais exaust@ desse supermercado.
Dali a dois ou três dias decides ir ao supermercado. Ele diz que vai contigo. E tu dizes-lhe que não. Relembras a conversa e lembras que foi ele que decidiu que desta vez não iria contigo [afinal de contas tu deste-lhe a escolher]. E ele chora e diz que se vai portar bem.
A tua decisão [de o levares, ou não] pode ser estruturante e constructora. É uma situação do dia-a-dia e tu tens na mão a possibilidade de retirar o sofrimento/tristeza/frustração do teu filho. E de ti também porque afinal sabes que pode estar a sofrer/triste/frustrado.
Esta tua decisão tem mais impacto do que um castigo proferido dois dias antes como um ‘então quando chegarmos ficas sem ver o Panda’. Isto porque a situação do supermercado nada tem a ver com o Panda. E um castigo mostra que os grandes têm poder – mas não lhe ensina, directamente, a consequência do comportamento e a responsabilidade que ele tem nas decisões que toma.
Quando decides que não o vais levar estás a trabalhar no futuro, também. Da próxima vez, ele vai lembrar-se que ele tem em si o poder de
- decidir o comportamento dele
- decidir o futuro
- tomar uma decisão em consciência porque sabe que a mãe/pai faz bater a bota com a perdigota e não tem de ser má ou sentir-se mal porque vai ter de aplicar um castigo... O que vai acontecer é que ele é que vai escolher. E a escolha é só dele, capisce?
Fácil, não é? Nop! É mesmo muito difícil, sobretudo quando tens de fazê-lo cumprir uma consequência 2 dias depois e quando ele até se anda a portar bem. Asseguro-te que é muito mais duro para ti do que para ele. Ainda assim, esta decisão e atitude é muito mais coerente, justa e ensina muito mais.
E quando é justo, eles aceitam a autoridade dos pais.
[fonte: sobreavida.com.br]
Não é nada fácil. E ontem comprovei isso. Acabou mal a noite, entre choros, palmada no rabo e castigo no quarto. E estou triste por isso. Triste porque ele bate, pontapeia e tentar morder. Tem dois anos e meio. Não sei que mais faça.
ResponderEliminarO meu filho tb está com 2 anos e meio e passa-se exactamente a mesma coisa...Ele bate e por mais que o castigue ou coloque a pensar ele continua a fazer a mesma coisa, às vezes sinto que está a testar os meus limites...Decidi ontem que deixei de ter limites quanto a esse aspecto, bate a primeira vai para o corredor pensar...vamos ver como corre
EliminarObrigada, João!
ResponderEliminarÉ mesmo isto, dificil de fazer mas necessario para que eles crescam confiantes e equilibrados. Ainda hoje tive uma situação desta com um casaco... e vergonhosamente admito que lhe mudei o casaco (depois de ter dito que ja estava vestido e não ía despir). Mas com isto so vou conseguir qe ele repita a proeza todas as manhãs... A consistencia e coerencia faz todo o sentido!
ResponderEliminarObrigado dra Magda aka boss . Na educação
ResponderEliminarSe for facil provavelmente está errado.
Ainda hoje falei do k me ensina bjs e ab João
Como nos é familiar! :)
ResponderEliminarMuito bom!
ResponderEliminarMagda, palavras sábias.... tirei daqui mais umas ideias... e nos próximos dias vou ao teu site colocar uns pedidos de ajuda anónimos... :)
Os pais ao serem inflexíveis e ao não voltarem atrás nunca nas suas decisões não estarão também a transformar a criança num adulto conformado e pouco combativo? Se há coisa que a vida nos ensina é que quem insiste mais e luta contra um não é quem melhor consegue alcançar os seus fins. Será correcto ensinar-lhes que depois de um "não" não vale a pena insistir? Para mim é mais cómodo que a minha filha perceba que um não é um não. Da próxima vez já não insiste e tudo é mais calmo. Contudo, fico sempre com a sensação de que não estou a prepará-la para um futuro em que a capacidade de insistir e de ultrapassar dificuldades são qualidades essenciais. Depois admiramo-nos porque as pessoas aceitam tudo e não se revoltam...alguém as ensinou a ser assim porque se portavam mal no supermercado... :))
ResponderEliminarTive muitas vezes essa dúvida com minha filha que tem hoje 8anos. Nunca fez uma birra e hoje percebo que por ter sido coerente mas por vezes tb flexível e paciente consigo até hoje que ela perceba quando é que um não é não ou quando vale a pena por um uns olhinhos de gato das botas e insistir. Duvidas vou ter sempre mas ninguém disse que era fácil ;)
EliminarEles sabem muito bem quando nos podem dar a volta, pois existem muitas maneiras de dizer não...quando recuo no tempo lembro-me bem ;)
EliminarOs pais ao serem inflexíveis e ao não voltarem atrás nunca nas suas decisões não estarão também a transformar a criança num adulto conformado e pouco combativo?
ResponderEliminarSe há coisa que a vida nos ensina é que quem insiste mais e luta contra um não é quem melhor consegue alcançar os seus fins. Será correcto ensinar-lhes que depois de um "não" não vale a pena insistir? Para mim é mais cómodo que a minha filha perceba que um não é um não. Da próxima vez já não insiste e tudo é mais calmo. Contudo, fico sempre com a sensação de que não estou a prepará-la para um futuro em que a capacidade de insistir e de ultrapassar um não são qualidades essenciais. Depois admiramo-nos porque as pessoas aceitam tudo e não se revoltam...alguém as ensinou a ser assim porque se portavam mal no supermercado... :))
Os pais ao serem inflexíveis e ao não voltarem atrás nunca nas suas decisões não estarão também a transformar a criança num adulto conformado e pouco combativo? Se há coisa que a vida nos ensina é que quem insiste mais e luta contra um não é quem melhor consegue alcançar os seus fins. Será correcto ensinar-lhes que depois de um "não" não vale a pena insistir? Para mim é mais cómodo que a minha filha perceba que um não é um não. Da próxima vez já não insiste e tudo é mais calmo. Contudo, fico sempre com a sensação de que não estou a prepará-la para um futuro em que a capacidade de insistir e de ultrapassar dificuldades são qualidades essenciais. Depois admiramo-nos porque as pessoas aceitam tudo e não se revoltam...alguém as ensinou a ser assim porque se portavam mal no supermercado... :))
ResponderEliminarA questão é que os miúdos devem perceber que determinado comportamento leva a uma consequência... insistir por insistir não é nada... Num mundo real nós não andamos a insistir para conquistar algo, nós trabalhamos para alcançar, procuramos fazer as coisas certas até atingirmos o objectivo aí é que está a diferença... Se damos algo ao nossos filhos só porque insistem, insistem e insistem, mesmo que consideres que a atitude não é melhor, não estamos a ensinar nada... a que ensinar a "trabalhar" para conseguir o que queremos, mesmo que isso só signifique uma mudança de comportamento.
EliminarPor outro lado não devemos ensinar o "insistir para conquistar", mas sim o não desistir. Ensinar cair e levantar, a saber lidar com o não e com derrota, e se for algo que queira muito lutar por isso... Pelo menos para mim educar é assim ;)
aprenderão com certeza pelo exemplo, a insistência (nossa e não deles...) e, sobretudo, a coerência.
Eliminare nós tb aprendemos com eles, se insistirmos, com coerência, segurança e justiça.
Qndo os pais sao frouxos, incentivam o desrespeito dos filhos para com eles. Os pais devem ter autoridade , falar com firmeza e bondade, dá o exemplo, e explica aos filhos o pq das regras e dos nãos, elas tbm precisam aprender a ceder com seus caprichos. Se os pais nao cumprem com suas palavras...nao terao o respeito de seus filhos..e esses tbm nao respeitarao ngm, professores, tutores, etc... aprenderam que podem tudo, que pode controlar tudo e a todos,soberbos, mimados ... pq filhos irritadiços, revoltados?!? Para mudarmos o mundo precisamos de paz interior, controle das emoçoes...e isso deve ser ensinado no lar desde pequenos.
ResponderEliminarDrª.
ResponderEliminarGostei imenso do que li! É isso mesmo!O pior é a prática...
Vou tentar fazer tudo direitinho com as minhas netas.
Obrigada pela maneira como apresenta as situações:impossível não entendermos.
Beatriz de Bragança
VIDA E PENSAMENTOS
http://pegadasdeanjo.blogspot.com
Gostei imenso! É o meu dia-a-dia! Obrigada pela forma clara e inequivoca como coloca a questão e a "solução"! Bastante útil mas confesso tem sido difícil de praticar com as minhas duas filhas.
ResponderEliminarGostei imenso! É o meu dia-a-dia! Informação muito útil e a praticar com as minhas duas filhas...confesso nem sempre é fácil! Obrigada pela forma clara e inequívoca com que expõe a questão
ResponderEliminarUma outa questão que também me parece importante é a facilidade com que os pais mentem aos filhos: "vou só levar uns guardanapos e o detergente da loiça". Mas depois, como ele está calmo (porque afinal, a mãe também só vai levar duas coisas), decides levar mais coisas, porque também fazem falta. E o "por isso não vale a pena pedires nada - porque só vamos levar duas coisas", cai por terra, porque a condição inicial deixa de existir. "Ah", pensa a criança, "então se vamos levar mais coisas, também podemos levar o que eu quero".
ResponderEliminarE a criança aprende que o que o pai/mãe diz, afinal, é relativo. E que quando a mãe diz sim, não, levamos isto, não levamos aquilo, há sempre espaço para uma insistência ou duas (vulgo, birra). ;)
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarPara mim, neste momento em que a minha filha tem quase 17M é não ter muitas vezes exactamente noção do porquê da birra... :| é que já se começa a atirar para o chão... achava que isto só ia acontecer mais tarde!!
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