A proposta aprovada desceu para ser discutida na especialidade, resultando na polémica proposta de referendo do PSD. Os ilustres lembraram-se de juntar ao debate da coadopção a problemática da adopção por casais do mesmo sexo e levá-las juntas a referendo. Com a colagem a esta 'causa fracturante', procuram extremar posições e, eventualmente, manter o povo distraído do essencial. Mas lembro que o PS chamou este tema da coadopção, para ver se capitalizava mais votos junto dos partidários dessas mesmas 'causas fractuantes'. Se, como se diz no primeiro parágrafo deste texto, o direito das crianças orfãs está assegurado pela actual lei, qual seria o interesse real de levar este tema ao parlamento? Qual o interesse de alimentar estas 'fracturas' na sociedade, quando deveríamos estar à procura do que é melhor para as crianças institucionalizadas?
Em Maio, escrevi um texto, em que explicava a minha posição sobre a adopção por casais do mesmo sexo (Eu conservador me confesso). Resumidamente, 1) a premissa principal deste debate deverá ser 'a adopção é um direito da criança e deverá servir o melhor interesse da mesma'; 2) caso-a-caso, os técnicos têm que procurar a melhor família para a criança em concreto; 3) essa família pode ser branca, preta, amarela ou às pintas, homossexual ou heterosexual, com cão, gato ou piriquito, muito rica ou remediada, desde que seja a melhor família para aquela criança. Nesse sentido, sou favorável à retirada da alínea que exclui as famílias de casais do mesmo sexo da lista de potenciais candidatos da actual lei da adopção.
Depois de rever todos os estudos científicos realizados sobre a adopção em geral e a adopção por casais homossexuais (eles não usam o termo 'casais do mesmo sexo') em particular, a American Academy of Pediatrics emitiu um importante parecer sobre o tema. Os seus autores concluem que as crianças adoptadas por casais homossexuais têm uma resiliência que os permite serem saudáveis (social, psicologica e sexualmente), mesmo quando existem discrepâncias económicas e legais da forma como as suas famílias são tratadas e/ou quando são alvo de estigma social. Mais, os estudos mostram que o bem-estar das crianças é mais afectado pela relação com os pais, pela sensação de competência e segurança dos mesmos e apoio económico e social à família que o sexo ou orientação sexual dos seus pais.
Antes de me debruçar atentamente sobre o tema, admito que a adopção por casais do mesmo sexo me fazia confusão. É normal, porque não somos imunes aos estigmas e preconceitos do meio em que crescemos. Mas cabe-nos a nós desmontar os preconceitos que são negativos, para nós e para os outros.
Nota final: Ainda sobre os preconceitos, o Henrique Raposo escreveu (e bem) isto: «as pessoas que se queixam da forma caricatural como os média retratam padres e cristãos são as mesmas pessoas que promovem uma visão caricatural e agressiva do gay. Se o padre é retratado como um Amaro perpétuo, o gay é desenhado como uma bichona irresponsável e, por isso, incapaz de ter uma família. Além de ser irresponsável, esta bichona é vista como uma entidade perversa, sexualmente perversa. A homossexualidade surge assim como uma perversão semelhante à pedofilia. Aliás, gay e pedófilo são sinónimos nesta visão das coisas. Ora, é esta equivalência moral que explica a recusa militante da coadopção ou adopção de crianças por homossexuais: em muitas cabeças, um gay a entrar num lar de crianças para adopção só pode ser uma imagem sexual, a raposa a entrar no galinheiro. Estas cabeças estão erradas. Tal como o celibato dos padres, a homossexualidade não é uma perversão sexual e não provoca pedofilia».
[fonte: vulture.com]
Nota final: Ainda sobre os preconceitos, o Henrique Raposo escreveu (e bem) isto: «as pessoas que se queixam da forma caricatural como os média retratam padres e cristãos são as mesmas pessoas que promovem uma visão caricatural e agressiva do gay. Se o padre é retratado como um Amaro perpétuo, o gay é desenhado como uma bichona irresponsável e, por isso, incapaz de ter uma família. Além de ser irresponsável, esta bichona é vista como uma entidade perversa, sexualmente perversa. A homossexualidade surge assim como uma perversão semelhante à pedofilia. Aliás, gay e pedófilo são sinónimos nesta visão das coisas. Ora, é esta equivalência moral que explica a recusa militante da coadopção ou adopção de crianças por homossexuais: em muitas cabeças, um gay a entrar num lar de crianças para adopção só pode ser uma imagem sexual, a raposa a entrar no galinheiro. Estas cabeças estão erradas. Tal como o celibato dos padres, a homossexualidade não é uma perversão sexual e não provoca pedofilia».

Gostei muito João! São opiniões destas, sensatas e fundamentadas que nos fazem falta!
ResponderEliminarGosto Joca. Obrigada.
ResponderEliminarParabéns pelo texto bem fundamentado.
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