Sobre a dose televisiva

A American Association of Pediatrics (AAP) desaconselha televisão para crianças menores de 2 anos (mesmo quando ela só 'toca' de fundo). Esta posição vem desde 1999 e foi reforçada em 2011 com novas evidências científicas. Baseia-se em 3 premissas: (1) as crianças menores de 2 anos precisam de crescer afectivamente/socialmente através da interacção com outros seres humanos e não máquinas; (2) as crianças menores de 2 anos não têm capacidade de perceber os programas (mesmo os rotulados de educativos) sem a ajuda de um adulto; (3) devemos evitar vícios sedentários que estão na génese de uma menor actividade física e de um isolamento social de muitos adolescentes.

É bom ter estas premissas em mente, de forma a dosear a quantidade de horas que os nossos filhos (mesmo mais velhos que 2 anos) estão em frente à televisão. Mas, como em tudo, julgo que é preciso bom senso. Primeiro, há canais de televisão que não são muito diferentes daqueles giratórios que se colocam em cima dos berços. Lembro-me de utilizar muitas vezes o BabyTV para hipnotizar o JM. Aquela música serena acompanhada ora de peixes a nadar calmamente por um aquário cheio de corais, ora aquelas manchas multicolores a mudar de forma lentamente foram bons hipnóticos, quer para o pai, quer para o filho. Não vejo como possam fazer mal à criança.

Mais tarde, já o JM se sentava e brincava com os pais e, de vez em quando, ligávamo-lo à televisão. Umas vezes para podermos tratar da vida doméstica, outras porque tinhamos mais que fazer do que estar a interagir com a criança. A vida moderna deixa-nos pouco tempo para estar em casa, mas depois cria-se quase uma obrigação estarmos todos os minutos dedicados às crias. Houve momentos em que a televisão deu muito jeito para eu poder ler um artigo de uma revista, trabalhar um bocadinho no computador ou fazer um telefonema mais longo. E (crime de lesa pátria!) o JM ainda não tinha dois anos. Abençoado Panda e abençoados DVDs dos Metallica que muito ajudaram a manter o equilíbrio cá em casa. E ele beneficiava com isso também.  Pais equilibrados e felizes educam crianças equilibradas e felizes (ou pelo menos tentam).

JM, 7 meses, ligado à 'máquina'.

Depois veio o iPad cá para casa. Os tablets são mais interactivos que as televisões. Para além dos jogos didácticos, o youtube é uma televisão que implica escolhas. Nem que seja o vídeo seguinte. Este aspecto da interactividade dos tablets versus passividade da televisão é muito apreciado num recente parecer da Académie des Science (France)Mais, o iPad é transportável para qualquer divisão cá de casa, o que permite ter um olho no que estamos a fazer e outro no que ele anda a ver. Para além disso, o rapaz encontra coisas incríveis que nos fazem rir. Cá em casa, o iPad, que ele reclama como «o meu iPad», tem vindo a substituir a televisão.

Aprecio a disponibilidade mental das pessoas que não têm televisão em casa. (Vejam o exemplo da Magda.) Cá em casa gostamos muito dela. Dá-nos séries, filmes, notícias e alguns programas de entretenimento. Também não vamos privar o MM à televisão, só porque tem menos de 2 anos. Para mais, o irmão mais velho ligá-la-ia na mesma para ver os desenhos animados que tanto gosta, independentemente de ele estar na sala. Uma coisa é importante: a televisão não educa e não subsitui os pais. Diria até que isso é tão verdade para menores como para maiores de 2 anos. Durante a vida deles, teremos muitas vezes que restringir a televisão, como teremos que restringir os telemóveis e os computadores. E teremos que explicar, explicar, explicar: o que estão a ver, o que estão a fazer, o que estão a procurar. Imperará o bom senso.

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